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Xenotransplante: esperança para quem aguarda um novo órgão

O conceito de xenotransplante parece saído de um filme de ficção científica, mas está cada vez mais próximo da realidade. Em desenvolvimento há pelo menos 20 anos, a técnica busca utilizar órgãos de porcos geneticamente modificados para transplante em seres humanos. Duas décadas de pesquisas em engenharia genética começam a dar os primeiros resultados. Em janeiro de 2022, um homem norte-americano foi o primeiro humano a receber o transplante de um coração suíno. O paciente morreu dois meses depois, e ainda não se sabe se o órgão transplantado teve responsabilidade no óbito. 


O Brasil também está na nova fronteira da tecnologia da saúde. Em março deste ano, o Governo do Estado de São Paulo anunciou o investimento de quase R$ 50 milhões em uma parceria entre Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a startup XenoBrasil para desenvolvimento de pesquisas sobre xenotransplante. O acordo também prevê a criação de um Núcleo de Tecnologias Avançadas para Bem-Estar e Saúde Aplicados às Ciências da Vida, o primeiro na América Latina. Também em São Paulo, desde 2017, o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células Tronco, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), e o Instituto do Coração trabalham na geração de embriões suínos geneticamente modificados que viabilizem transplantes entre espécies. 


A criação de porcos cujos órgãos sejam compatíveis com o corpo humano é a base do xenotransplante. Em 2002, uma empresa de engenharia genética da Escócia e outra nos Estados Unidos anunciaram o nascimento de, ao todo, seis clones de porcos geneticamente modificados. Esses animais, frutos da transgenia, têm uma série de diferenças em relação aos de tipo comum. Eles podem ser menores, por exemplo, para que seus órgãos caibam no corpo de um ser humano. Mas essa não é a principal adaptação feita nos animais. O principal objetivo da clonagem é minimizar as chances de rejeição dos transplantes. 


O corpo humano possui poderosos mecanismos em seu sistema imunológico para identificar e atacar corpos estranhos, que funcionam contra micro-organismos ou órgãos complexos, como um novo coração. Por isso, os porcos para transplante são resultado de uma engenharia genética que ajusta moléculas e proteínas do animal para torná-las mais compatíveis com o nosso corpo, incluindo em seus genes marcadores humanos. Dessa forma, o corpo recebe um órgão “camuflado”, com menos de chances de ser visto como invasor, atacado e morto. O modelo conhecido como “porco de dez genes” é tido como o mais avançado nesse sentido. Foi este, por exemplo, o animal usado no transplante de David Bennet, o norte-americano cujo caso, de tão complexo era inelegível até mesmo para receber um coração humano. O xenotransplante foi sua única esperança. 


O primeiro transplante de coração da história aconteceu em 1967. No início, os pacientes transplantados sobreviviam pouco tempo após a cirurgia. Em 1971, uma mulher viria a se tornar a pessoa que viveria por mais tempo com um novo coração: 23 anos. No Brasil, o primeiro transplante de coração foi realizado em 1968, em São Paulo. Hoje, o País conta com centros de excelência em transplante mundialmente reconhecidos. No entanto, assim como todo o planeta, a fila de espera por um órgão pode ser muito demorada. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, em 2020 cerca de 29 mil pacientes estavam em lista de espera para transplante de rim, mas apenas 7,4 mil procedimentos foram concretizados. A expectativa é que, com o avanço dos xenotransplantes no País, a demanda por rins seja a primeira atendida. 



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