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Beneficência Portuguesa em estado grave

Publicado em 23/11/2015 • Notícias

Seu apelido era Corta-Fitas. Último presidente do Estado Novo português, Américo Thomaz não perdia uma inauguração. Tanto que atravessou um oceano, em abril de 1972, para cortar fita no Rio. O político viajou 7.700 quilômetros e abriu as portas do Hospital Santa Maria, o mais moderno do centenário complexo da Beneficência Portuguesa. Com 473 leitos, cem consultórios, centro cirúrgico e laboratórios, o novo espaço consolidou a entidade sem fins lucrativos como o mais importante centro médico carioca, com um total de 1.300 leitos em suas instalações. Hoje, isso faz parte de um passado esmaecido. O que se vê no presente são seguranças de terno e gravata tomando conta do local. A diretoria tem até sexta-feira para entregar as chaves.Gestões desastradas, falta de transparência e demissões em massa no anos 1990 fizeram a Beneficência Portuguesa, fundada em 1840 na Rua Santo Amaro, na Glória, mergulhar num poço sem fundo. Com dívida estimada em R$ 200 milhões, sendo R$ 160 milhões de passivo trabalhista, a entidade viu seu terreno de 13 mil metros quadrados ir a leilão judicial em 2013 e ser arrematado, por R$ 60 milhões, pela Rede D’Or, do empresário Jorge Moll. Desde então, advogados da entidade tentam anular a compra na Justiça, alegando que apenas uma das seis matrículas de IPTU do imóvel foi leiloada e que o terreno havia sido avaliado em R$ 300 milhões. Mas, no dia 27 de outubro, a juíza federal Fernanda Duarte Lopes da Silva, titular da 3ª Vara de Execuções Fiscais, deu posse à Rede D’Or e determinou a entrega das instalações em 30 dias. No mesmo dia, os seguranças do grupo privado se apresentaram, assumindo a portaria. Treze empresas prestam serviços médicos no complexo. Elas terão que encerrar as atividades no primeiro semestre do ano que vem.
— Somos 2.500 sócios que vamos perder atendimento. A maioria é idosa e nunca precisou ir a outro hospital na vida, aqui são diversas especialidades e até o remédio é de graça. Se o hospital fechar, será a morte da Beneficência Portuguesa — afirma Roberto Dias, presidente da entidade.
SÓCIOS TÊM ATENDIMENTO GRATUITO
Décadas atrás, associar-se à Beneficência custava o equivalente a um apartamento. O pagamento em parcela única dava direito à cobertura médica total, do parto ao enterro. Dos 2.500 sócios atuais, pouco mais de 500 contribuem mensalmente para ajudar a casa. Muitos estão apavorados, e um grupo já se organizou para pedir socorro às autoridades, em parceria com a Associação de Moradores da Glória. Uma das preocupações é com os cerca de cem sócios que vivem no asilo da Beneficência, em Jacarepaguá. O endereço não foi a leilão, mas, se confirmada a perda do hospital, não haverá fonte de recursos para manter o espaço. Na semana que vem, o governador Luiz Fernando Pezão deverá recebê-los em seu gabinete.
— Tentamos contato com o prefeito Eduardo Paes, mas parece que ele não quer se envolver — afirma Luiz Portela, diretor de patrimônio da entidade.
Ao ser eleito em 2008, o prefeito assumiu na primeira página do GLOBO 39 compromissos de campanha. No item 26, a promessa: “Recuperar o Hospital da Beneficência Portuguesa”. Se ainda quiser, o prefeito pode repetir seu feito com a antiga fábrica da Bhering, na Zona Portuária, que também foi a leilão judicial: desapropriar o imóvel, transformá-lo em bem municipal e indenizar o arrematante. Ele também interviu para salvar sobrados antigos da Rua da Carioca, vendidos ao banco Opportunity pela Venerável Ordem Terceira (VOT). Procurado, o prefeito não se manifestou.
Quando se pensa em Beneficência Portuguesa, é natural a associação com a Santa Casa de Misericórdia. Os problemas são parecidos, como também a importância histórica dos dois hospitais, que já foram os principais da cidade, ao lado do Hospital São Francisco de Assis, da VOT. Também a VOT está mergulhada em dívidas e problemas: no ano passado, um dos elevadores da unidade chegou a ser penhorado para ir a leilão judicial, assim como vários veículos do hospital. Mas, antes do pregão, o elevador acabou sendo “salvo”. As três entidades acostumaram-se a receber centenas de imóveis como doações. Muitas pessoas de posse que não tinham filhos entregaram seus bens às entidades. Com o passar dos anos, o patrimônio foi dilapidado. A Beneficência, que já chegou a somar mais de mil imóveis, hoje tem menos de cem.
DÍVIDAS DE UM LADO, LUCRO DO OUTRO
Do outro lado do ringue, os negócios da família Moll vão de vento em popa. Sediado no Rio, o maior grupo hospitalar do Brasil tem 32 unidades em quatro estados. A expansão foi possível pelo aporte financeiro do banco BTG Pactual, que obteve retorno de R$ 4 bilhões e, há seis meses, vendeu a um fundo de Singapura ações próprias e de terceiros, sob sua gestão, por R$ 1,6 bilhão. Um mês antes, o gestor de fundos Carlyle pagou R$ 1,75 bilhão para virar sócio da rede, que tem a família Moll como dona de 62% das ações. Ano passado, a receita foi de R$ 4,9 bilhões, com lucro líquido de R$ 320 milhões, 53% a mais do que em 2013.
Em nota, o grupo afirma que ainda “será feita uma avaliação da situação geral do hospital para estabelecer um plano de investimentos”. Os associados podem obter informações no telefone 3185-2391, ou pelo e-mail salveabeneficiencia@bol.com.br. A Rede D’Or não pretende conceder nenhum benefício a eles.

Fonte: o Globo

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