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Como curar uma doença negligenciada

Publicado em 04/08/2015 • Notícias

Uma maneira fácil de reconhecer uma doença negligenciada pela comunidade de pesquisa médica é a reação diante de um surto inesperado que causa comoção mundial. No caso da atual epidemia de Ebola, que matou 11 mil pessoas em um ano e meio no oeste da África, bastou um ano para que surgisse uma vacina altamente eficaz, quando o normal é esperar mais de uma década.

A vacina que exibiu virtualmente 100% de eficácia teve os resultados de seu primeiro teste clínico divulgados na sexta-feira passada na revista “”The Lancet””. O imunizante, desenvolvido pela Agência de Saúde Pública do Canadá e depois adquirido pela Merck. Testes foram coordenados por equipes da OMS e da Escola de Saúde Pública de Harvard, de Boston.

No caso do ebola, não era exatamente uma opção demorar para fazer os testes. Não só a doença era extremamente agressiva, mas os surtos de ebola normalmente não chegam a durar muitos anos, mesmo que matem muitas pessoas. Cientistas conseguiram começar a testar as primeiras vacinas em março, pouco mais de um ano depois do início da epidemia, e nessa época medidas de contenção já estavam começando a frear o aumento desenfreado no número de casos.

Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, que estão desenvolvendo uma outra vacina candidata, estimavam ser necessário que o imunizante fosse aplicado em 150 mil voluntários para que um teste fosse feito em condições ideais. Em maio, o número de pessoas em contato com doentes de ebola já era provavelmente mais baixo que esse.

O que permitiu aos cientistas da OMS avaliar a eficácia da droga foi a estratégia de testes clínicos “”em anel””. Nesse esquema, não existe um grupo de pacientes de controle que recebem placebo em vez de vacina para efeito de comparação, como é praxe. Todos aqueles em risco de terem contraído o vírus são vacinados, mas alguns recebem sua dose só duas semanas depois, permitindo algum grau de comparação.

Na vacina que obteve sucesso, 2.014 pessoas foram imunizadas logo após saberem que tinham entrado em contato com algum doente de ebola. Outras 2.380 foram aquelas vacinadas com duas semanas de intervalo. No primeiro grupo, ninguém contraiu ebola após o período necessário para ação da vacina (dez dias). No segundo grupo, foram registrados 16 casos, menos que o esperado.

OMS SOB CRÍTICA

O resultado foi comemorado por africanos dos países afetados pela doença, por trabalhadores de saúde e pela direção da OMS, que vinha sendo criticada pela demora em agir na região.

A entidade não tinha reservado dinheiro suficiente em caixa para montar a operação de guerra necessária para deter o ebola logo nas primeiras semanas, e em vez de tentar mobilizar outras agências ligadas à ONU, montou um comitê de emergência que enfrentou certa burocracia até convencer países-membros da organização a despejar dinheiro extra. Quando a agência finalmente despejou um batalhão de voluntários vestidos em trajes de plástico na região, muitos africanos com suspeita de ficaram com medo, e fugiram dos hospitais emergenciais em vez de procurar ajuda.

A ação levou tempo para surtir efeito. A lentidão rendeu à OMS críticas duras de ONGs que trabalham na África Ocidental, como os Médicos Sem Fronteiras e a Oxfam, mas agora, finalmente, a vacina licenciada pela Merck parece trazer um suspiro de alívio. Existe ao menos alguma ferramenta que pode ser tentada na próxima epidemia de ebola, além de ajudar a debelar o surto atual.

A OMS agora estuda manter um esquema de emergência já em prontidão para deter alguns outros patógenos de alto impacto em saúde pública. As principais candidatas são a MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio), a febre de Lassa e a febre do vale do Rift.

A VACINA DA DENGUE

A dengue é uma doença que atualmente mata mais que o ebola no mundo, mas não acaba com tantas vidas tão rápido num lugar tão concentrado.

Em um ano, cerca de 500 mil pessoas são hospitalizadas por dengue, das quais 12.500 morrem. A febre causada pelo vírus, claro, não é tão violenta quanto as crises hemorrágicas causadas pelo ebola, mas o risco de contrair a doença é maior. Metade da população mundial vive em áreas que o mosquito transmissor da doença, o Aedes aegypti, habita.

Desenvolver a primeira vacina que aparenta ser mais eficaz, porém, levou décadas. E a notícia de que a gigante farmacêutica Sanofi teve um bom resultado em testes na semana passada ainda veio acompanhada de alguns poréns.

O imunizante teve eficácia de 82% para pacientes já expostos ao vírus, mas de 52% para quem nunca teve dengue. E crianças abaixo de 9 anos parecem ter sido ligeiramente prejudicadas pela vacina, em vez de beneficiadas, ainda não se sabe bem por quê.

A vacina, que foi experimentada em 35 mil crianças e adolescentes no mundo, não foi testada no Brasil. Precisa ainda passar por agências sanitárias para entrar para valer em programas de saúde pública. Mas é razoável imaginar que ela deve ter algum impacto sobre a doença, ainda que não seja capaz de erradicá-la num prazo apreciável.

OUTROS PATÓGENOS

O ebola e a dengue, claro, não são as únicas doenças negligenciadas do mundo. A OMS lista 17 patógenos que ameaçam 20% da população mundial mas recebem menos de 0,1% dos gastos discricionários totais em saúde no planeta, incluindo verbas de pesquisa. A dengue está na lista, junto com a doença de chagas, a esquistossomose e outras. (A crise do ebola não tinha começado quando a lista foi compilada em 2013.)

A dengue talvez seja um caso especial da lista por estar muito disseminada e ter despertado um interesse um pouco maior de pesquisa, o que permitiu a realização de muitos estudos básicos que culminam agora tanto em vacinas candidatas quanto em métodos para controlar o mosquito.

Mas e outras doenças? Será que uma mudança na cultura global de promover pesquisa não poderia turbinar o combate às outras 16 doenças negligenciadas na lista da OMS? A rapidez com que surgiu a vacina do ebola vai sempre causar algum receio sobre se aquilo que está sendo feito para combater esses patógenos é realmente o melhor que o mundo pode fazer.

A OMS admitiu muitos pontos das críticas feitas com relação ao episódio do ebola, e para esse tipo de caso, é possível que sua nova política para emergências vá surtir efeito. Mas algumas doenças negligenciadas matam muita gente, apesar de não causarem calamidades tão súbitas e concentradas quanto a do ebola.

Uma análise dos Médicos Sem Fronteiras mostra que mais dinheiro está entrando hoje do que entrava para essas doenças há duas décadas, mas vacinas e remédios não estão surgindo mais rápido. Será que há algo errado na estratégia global para combate a essas doenças? Talvez a reviravolta no caso do ebola seja uma boa oportunidade para a OMS repensar o caso.

Fonte: Folha de S.Paulo

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