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Guillain-Barré e zika estão relacionados

Publicado em 10/12/2015 • Notícias

Depois da microcefalia, o vírus zika foi relacionado a outra doença: a síndrome de Guillain-Barré, uma reação autoimune a agentes infecciosos que pode provocar fraqueza muscular, paralisia e, em casos mais graves, levar à morte. O Ministério da Saúde já vinha avaliando o aumento no número de casos da síndrome, sobretudo no Nordeste. Ontem a pasta confirmou a associação entre o distúrbio e o vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. A possível relação entre o zika e a doença já tinha sido observada durante o surto do vírus que atingiu a Polinésia Francesa em 2013, mas, de acordo com o ministério, ainda estão sendo conduzidos estudos para tentar entender como ocorre essa associação e se há outros fatores envolvidos.
Como a síndrome não é de notificação compulsória, o governo federal não sabe quantas pessoas tiveram ou têm Guillan-Barré no país. Os dados disponíveis, porém, apontam que, no ano passado, houve 65.884 procedimentos ambulatoriais e hospitalares no SUS (incluindo internações) para tratar a doença. O número de procedimentos, no entanto, não corresponde necessariamente ao número de pacientes atendidos, pois uma pessoa pode realizar mais de um atendimento.
Já de acordo com levantamento feito pelo “G1” com secretarias de Saúde de 24 estados publicado ontem no site, pelo menos seis deles contabilizaram aumentos significativos de ocorrências da síndrome este ano: Pernambuco, com 130 casos, contra apenas nove no ano passado; Piauí com 42, frente a 23 em 2014; Rio Grande do Norte com um aumento de 23 casos em 2014 para 33 em 2015; Sergipe com 28, contra nenhuma ocorrência no ano passado; Maranhão, onde o número de suspeitas passou de dez para 32; e Bahia, com 64 ocorrências e onde, apesar da falta de registros de anos anteriores, o número quase dobrou desde julho deste ano, quando havia 29 casos confirmados.
A ocorrência de síndromes neuropáticas relacionadas ao vírus zika também foi reforçada após investigações da Universidade Federal de Pernambuco, no fim do mês passado. Amostras de seis pacientes com sintomas neurológicos registraram a presença do vírus. Do total, quatro foram confirmados com Guillain-Barré. Assim, embora não haja números consolidados sobre casos da síndrome no Brasil, o aumento de diagnósticos chamou a atenção do Ministério da Saúde este ano, por estar ocorrendo exatamente na mesma região onde houve uma explosão nos registros de microcefalia.
Apesar da confirmação da associação entre o zika e a Guillain-Barré, especialistas recomendam cautela, principalmente para evitar pânico na população. Eles lembram que viroses como gripe e infecções bacterianas podem desencadear a reação do organismo característica da doença.
— Não é só o vírus zika que provoca GuillainBarré — destaca Maulori Cabral, professor do Departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, da UFRJ. — Toda vez que o corpo entra em contato com um elemento estranho, ele pode desenvolver a síndrome. É algo que não depende do micro-organismo, mas da própria pessoa, que muitas vezes tem esta predisposição. Acredito que estamos tendo mais relatos da doença justamente por causa do aumento da vigilância derivada da preocupação com o vírus da zika. E, como com a dengue, a melhor prevenção é acabar com o mosquito.

EPIDEMIAS AUMENTAM O RISCO

A neurologista Rosalie Corrêa, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho considera que não há ainda base científica suficiente para determinar que o zika provoque a síndrome.
— É precipitado estabelecer uma relação de causa e efeito entre zika e Guillain-Barré, até porque o diagnóstico definitivo para essa síndrome é difícil, um pouco demorado, feito após punção lombar. Acho difícil que tantos diagnósticos certos tenham sido feitos em tão pouco tempo — diz Rosalie. — Sabemos que muitas infecções virais podem fazer com que o corpo gere essa resposta errada, que é a síndrome. Quando o surto de dengue no Brasil passou a ser significativo, na década de 1990, já observamos um aumento de casos de Guillain-Barré. Sempre que há epidemias assim, aumenta a chance de os sistemas nervosos central e periférico serem atacados.
A neurologista Vanessa Müller, diretora médica da empresa VTM Neurodiagnóstico, no entanto, ressalta que a associação é um sinal de alerta.
— A alteração da imunidade provocada pelo vírus zika pode sim levar à Guillain-Barré. Em alguns estados, onde vemos um aumento exponencial da síndrome, é preciso ficar alerta — defende Vanessa. — A síndrome é, assim como a microcefalia, uma possível consequência da infecção pelo zika.
Por isso, Fernando Figueira, chefe do setor de neurologia do Hospital São Francisco, na Tijuca, Zona Norte do Rio, recomenda atenção aos eventuais sintomas iniciais da síndrome, especialmente para quem tenha sido vítima de alguma doença recentemente, tenha sido diagnosticada como zika ou não, para evitar possíveis sequelas.
— O diagnóstico precoce e a administração do tratamento adequado rápido são fundamentais para abortar a evolução da síndrome e evitar um comprometimento neurológico maior, com possíveis sequelas — conta. — A Guillain-Barré atinge seu ponto máximo entre sete e dez dias após o aparecimento dos primeiros sintomas e, como sua evolução pode ser muito rápida, é esta fase aguda o principal período para intervenção.

REPELENTES DO EXÉRCITO PARA GRÁVIDAS

Enquanto isso, o Ministério da Saúde e diversos estados continuam a anunciar medidas para tentar conter o surto de zika e o aumento dos casos de microcefalia no país ao mesmo tempo em que reforçam a vigilância em torno das doenças. Segundo estimativa do governo federal, entre 497.593 pessoas, num cenário conservador, e 1.482.701, nos cálculos mais pessimistas, já foram infectadas pelo vírus. Já novo boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Rio, divulgado ontem, apontou o registro de 45 casos de microcefalia no estado até último dia 5. No seu último boletim, publicado na semana passada, a secretaria contabilizava 23 casos.

Também ontem, o ministro da Saúde, Marcelo Castro, anunciou em São Paulo que o governo federal vai distribuir repelente para mulheres grávidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para ajudar a prevenir picadas do mosquito Aedes aegypti. Segundo ele, o produto deverá ser fornecido pelo Exército, que já fabrica normalmente esses repelentes para suas tropas. Ainda de acordo com Castro, ainda não há um calendário definido para o início da distribuição, mas ele espera que “seja o mais rápido possível”, com o Nordeste como área prioritária para as ações oficiais contra o mosquito. Em Pernambuco, começa hoje a notificação compulsória pelas unidades de saúde dos casos suspeitos de zika.

Fonte: O Globo

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