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Mulheres em Foco | Ivani Campagnari

Publicado em 28/07/2022 • Notícias

Bióloga por formação, com MBA pela Business School de São Paulo, Ivani Campagnari é CEO e uma das proprietárias da Sisnacmed, empresa que atua no segmento hospitalar há 32 anos, oferecendo soluções e tecnologias inovadoras, produtos médicos e hospitalares. Nesta entrevista, ela revela como foi o início da empresa e sua expansão no mercado. Também fala sobre os desafios enfrentados durante a pandemia de Covid-19 e os diferenciais da gestão que fazem com que a Sisnacmed se mantenha sempre atualizada em termos tecnológicos e de governança.

  1.   Me fale sobre sua trajetória profissional. Você já atuava no setor de equipamentos e serviços para a saúde antes da Sisnacmed?

Na verdade, eu trabalhava no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o Senai, mas, devido a uma emergência familiar, assumi a direção da gráfica do meu sogro. Meu marido é médico, então eu fiquei com esta responsabilidade e costumo dizer que foi o meu “MBA na prática”, porque, de repente, eu tinha uma indústria para administrar.

  1.   Qual é hoje a estrutura da Sisnacmed?

A Sisnacmed foi fundada há 32 anos e, ao longo desse tempo, foram criadas anovas “células” que, hoje, formam um grupo de empresas. Temos 93 colaboradores, sendo 53 deles na equipe interna e os demais divididos entre distribuidores e representantes externos. Estamos presentes em todo o Brasil e agora também exportamos para países da América Latina, Turquia, Espanha e Portugal.

  1.   Por que você decidiu entrar para este segmento?

O meu marido é médico, aliás a família toda segue a profissão. Ocorre que ele sempre passava um mês por ano trabalhando e participando de congressos nos Estados Unidos. Quando retornava sentia falta de equipamentos e dispositivos que não existiam aqui no país. Não só ele, mas também seus colegas, de outras especialidades médicas. Então, eu decidi abrir uma empresa para fazer a importação desses produtos que faltavam. Começamos a trabalhar com medicamentos, depois agregamos insumos e, mais tarde, equipamentos. Fomos pioneiros na oferta de dose unitária, algo que ninguém tinha ouvido falar por aqui. No começo, eu formava grupos de 20 farmacêuticos para levar aos  Estados Unidos, a fim de que eles pudessem conhecer essas novidades. Com o tempo, além de importar, passamos a fabricar alguns produtos com o objetivo de reduzir custos. Ou seja, seguimos uma evolução natural das coisas.

  1.   Sabemos que, para as mulheres, não é comum estarem à frente de empresas como tal estrutura. Como foi seu começo na Sisnacmed?

Quando eu comecei, há 32 anos, era convidada a participar de muitas reuniões das câmaras de comércio. Vinham representantes de muitos países da Europa, gente dos Estados Unidos e da Índia. Eu sempre era a única mulher, chegava a ser constrangedor. Tem um fato curioso que eu sempre conto. Eu estava negociando um equipamento com uma empresa dos Estados Unidos, de propriedade de um indiano. Eu iria até lá para fazer um treinamento e ver se o mercado nacional iria absorver aquele produto. Foi então que o tal indiano me perguntou se eu era casada. Eu disse que sim e ele, imediatamente, disse que não poderia falar comigo sem a presença do meu marido. Bem, meu marido é médico, mas nunca se envolveu na empresa; cada um tem o seu próprio ritmo de trabalho. A contragosto, ele viajou para lá, mas ficou do lado de fora observando a minha reunião. Esse foi o máximo do machismo para mim, mas é algo que precisava entender (como parte da cultura do fornecedor).

  1.   Como você percebe a presença feminina no setor hoje em dia?

Não tenho dúvidas de que as coisas estão se equilibrando. Ainda existe uma grande diferença (de gêneros), mas as coisas estão mudando para as mulheres. Eu acho até que está havendo uma simbiose, estamos aprendendo um pouco a “maneira masculina” de liderar. As mulheres costumam ser mais “emocionais”, mais delicadas e suscetíveis a aridez que esses ambientes de negócios costumam ter. Eu sempre comento com minhas funcionárias, faço uma espécie de mentoring, para que elas se preparem para assumir posições hierárquicas mais altas. Mas não se pode negar o fato de que nós, mulheres, sempre temos que demonstrar um pouco mais de preparo que os homens. Eu falo inglês, francês, italiano, espanhol e um pouco de alemão. Porque, nessas comitivas comerciais, eu tenho que mostrar a eles que, além de ser a CEO, eu sou capaz de negociar no idioma deles. Até mesmo para passar uma segurança maior e não perder negócios.

  1.   A pandemia trouxe impacto para todos os setores produtivos, mas o de saúde, é claro, foi o mais afetado. Como a Sisnacmed enfrentou esse desafio e quais foram as principais lições aprendidas?

A maior parte da equipe ficou trabalhando remotamente, mas a expedição, contas a pagar e a assistência técnica tinham que ficar presencialmente. Então eu também fiquei, porque percebi que a minha presença era um fator importante. Eu trabalho com equipamentos que precisavam de assistência técnica dentro dos hospitais e, nesse período, tivemos um problema em um cliente de Porto Alegre. Para dar mais segurança ao técnico, eu decidi ir junto com ele para lá. A máquina não poderia parar, principalmente naquele momento. Então entendi que tinha  uma importância muito grande demonstrar que a “capitã” estava à frente do navio.

  1.   Vocês chegaram a enfrentar algum problema com a cadeia de fornecedores?

Eu trabalho com produtos que foram muito demandados durante a pandemia, que são os monitores cardíacos e os respiradores. Como eu tenho um estoque muito bem controlado, não tivemos problema com o fornecimento. Além disso, a empresa estava muito bem equilibrada (financeiramente), porque sempre damos passos de acordo com a nossa capacidade. No entanto, sabemos que vários hospitais tiveram uma diminuição no faturamento, por isso estamos procurando ajudar, criando novos modelos de negócios. Eu pensava já ter visto de tudo nesses 32 anos, todos os planos econômicos que você puder imaginar, mas percebi que estava enganada. Nós temos que estar sempre preparados para as adversidades para rapidamente encontrar uma solução.

  1.   A pandemia também trouxe um grande avanço tecnológico para diversos setores. Você acredita que as empresas vão continuar investindo mais em P&D em razão disso?

Sim, inclusive estamos assistindo grandes desenvolvimentos em termos de digitalização e automação. Há uma busca, por parte dos hospitais e de todos os nossos clientes nesse sentido. Estamos investindo  pesado nisso porque sabemos que é o futuro.

  1.   Essa inovação deverá contribuir para ampliar a oferta de tratamentos e cuidados com a saúde?

Sim, isso veio para ficar. Primeiramente, a maior atenção com o cuidado preventivo, que sempre consideramos importantíssimo. E o digital também. Eu acredito que estamos em uma nova era na área de saúde, com os hospitais ainda mais preocupados com a qualidade dos produtos e equipamentos. Eles estão buscando investir em tecnologia, como percebi, aliás, durante a última edição da Feira Hospitalar.

  1.   Além da tecnologia, vem crescendo a importância das políticas de ESG. O que você pensa sobre a importância dessas medidas e como isso se aplica à sua empresa?

Colocando isso sob a perspectiva feminina, eu acredito que esta é uma preocupação inerente às mulheres – as três coisas, cuidar do aspecto ambiental, do social e da boa governança. É algo natural em nós. Aqui na empresa, eu sempre tive a questão ambiental no foco, não apenas porque existem exigências da própria Anvisa. Do ponto de vista da força de trabalho, eu posso dizer que o turnover tende a zero na minha empresa. Eu tenho funcionários que estão comigo desde o início ou há mais de 20 anos, pelo menos. Contamos com uma consultoria que nos dá um suporte em RH, fazemos pesquisa de clima para sempre buscar os melhores resultados na relação de trabalho.

  1. Para finalizar, de que maneira você equilibra a vida em família com a gestão da empresa?

Eu acho fundamental que a mulher tenha um bom respaldo familiar, um suporte do seu companheiro. Isso é de  suma importância e vital para que nós tenhamos tempo e espaço para evoluir na profissão. Eu tenho duas filhas e quatro netos. Meu marido costuma dizer que pareço a Indira Gandhi (ex-primeira-ministra da Índia), porque ela largava todos os chefes de estado se precisasse cuidar de um neto com febre. É mais ou menos o que eu faço, mas você precisa dosar na medida certa a dedicação entre família e trabalho. Quando minhas filhas eram pequenas, elas questionavam um pouco o meu trabalho, a minha ausência nas reuniões da escola. Quando começaram a entender o que eu fazia, passaram a sentir um grande orgulho. E isso é muito bacana. Especialmente quando olho para trás e vejo o conglomerado de empresas que construímos a partir da Sisnacmed e do legado que estamos deixando para as gerações futuras.

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