Nosso site usa cookies para melhorar sua experiência. Ao prosseguir você concorda com nossa política de privacidade.

Parcerias entre a indústria farmacêutica nacional e as universidades têm trazido resultados proveitosos para o Brasil, com a criação de diversos medicamentos nos últimos anos. Entretanto, especialistas avaliam que essas iniciativas estão aquém do seu

Publicado em 13/08/2015 • Notícias

Parcerias entre a indústria farmacêutica nacional e as universidades têm trazido resultados proveitosos para o Brasil, com a criação de diversos medicamentos nos últimos anos. Entretanto, especialistas avaliam que essas iniciativas estão aquém do seu potencial. Elas são prejudicadas pela aversão ao risco, pelo descompasso nos objetivos dos parceiros e pela burocracia, entre outros fatores. As sugestões para melhoria incluem o foco na incorporação de tecnologias já dominadas pelos fabricantes estrangeiros, o investimento em spin-offs acadêmicas e a simplificação de processos.

Uma das instituições de referência na colaboração com empresas do setor é a Universidade de São Paulo (USP). Entre os projetos de destaque, três produtos que chegaram ao mercado foram o anestésico Novabupi, da Cristália, com patente depositada em 1999; o Regederm, creme cicatrizante da Pele Nova (2002), e o Vonau Flash, medicamento da Biolab para tratamento de náuseas e vômitos (2004).

“”Temos dois projetos com alto potencial em médio e longo prazo””, informa Alexandre Venturini Lima, do setor de transferência de tecnologia da Agência USP de Inovação: uma vacina para tratamento da aids, desenvolvida com a Fundação Zerbini, e um medicamento para tratamento de distúrbios mentais, com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Hebraica de Jerusalém. A vacina está sendo testada em macacos no Instituto Butantã, que tem interesse no seu licenciamento.

O modelo de spin-offs, ainda recente no país, está disseminado há décadas nos Estados Unidos. Companhias classificadas como Knowledge Intensive Business Services (Kibs), serviços empresariais intensivos em conhecimento, se especializam na resolução de problemas da indústria. “”Enquanto as universidades têm o papel de fazer pesquisas de fronteira, as spin-offs transformam a descoberta em modelos de negócio””, explica o professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, Norberto Lopes.

É o caso da Lychnoflora, fundada em 2008 por cinco sócios oriundos da USP. A partir de duas plantas da Mata Atlântica, a empresa desenvolveu e está patenteando uma pomada para tratar a leishmaniose cutânea. O produto começa a ser testado em humanos este ano e deve chegar ao mercado em 2018. “”Nossa intenção é transferir essa tecnologia de fabricação, possivelmente para um laboratório público produzir e distribuir””, conta a empreendedora Thaís Guaratini.

Com 35 mil novos casos anuais no Brasil, a leishmaniose é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma doença negligenciada, isto é, faz parte de um grupo de enfermidades tropicais com poucos investimentos em pesquisas, produção de medicamentos e controle. A OMS estima que, a cada ano, 2 milhões de pessoas sejam infectadas.

Para o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec), Roberto Nicolsky, a prioridade das parcerias indústria-universidade deveria ser o domínio da tecnologia de fabricação de medicamentos já existentes. “”É absolutamente necessário investir em uma política de substituição de importações””, opina. “”É mais importante para o país hoje a inovação incremental que a radical, pois esta demora décadas.”” O número de novas moléculas patenteadas por todos os laboratórios do mundo, diz, não chega a dez por ano.

Nicolsky ressalta que essas duas formas de inovação não competem entre si: “”Elas correm em paralelo e, muitas vezes, através de uma inovação incremental se chega a uma radical””. Como exemplo, ele cita o Helleva, medicamento contra disfunção erétil lançado em 2008 pela Cristália após sete anos de estudos com a colaboração de 17 centros de nacionais de pesquisa. O pesquisador defende que o Brasil se inspire no modelo adotado por Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e Índia, no qual o Estado compartilha o risco do investimento em inovação por meio de recursos reembolsáveis.

Na opinião do diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, João Ernesto de Carvalho, a indústria nacional tem aversão ao risco e carece de uma visão mais realista do que é Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Carvalho cita como exemplo de descompasso de objetivos o projeto iniciado em 1988 pela Unicamp, que conseguiu sintetizar a artemisinina, matéria-prima na fabricação de remédios contra a malária, a partir de uma planta importada da China (Artemísia annua L.).

“”Seria possível ao Brasil produzir aqui toda a artemisinina para tratar os pacientes, mas não houve interesse da indústria””, afirma Carvalho. Ele menciona outro projeto: “”Estamos há três anos com a possibilidade de desenvolver dois novos medicamentos para o tratamento de câncer, mas a empresa que pediu exclusividade ainda não nos informou se vai investir ou não””.

Fonte: Valor Econômico

Mais notícias e eventos