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Com a precisão de um robô

Publicado em 30/08/2015 • Notícias

Depois de receber alta algumas horas após a intervenção cirúrgica, o paciente quase sem dor exibe como marca uma pequena incisão, que não condiz com o porte da cirurgia. Em vez de um bisturi, o cirurgião realizou o procedimento por meio de um console parecido com um videogame para comandar um robô equipado com todo o instrumental necessário para realizar do corte à sutura. Entre outros benefícios, a cirurgia robótica reduz a perda de sangue e os riscos de infecção, além de rápida recuperação. “”Ao contrário do que se pensa, a automação humaniza o atendimento porque dá condição ao médico de trazer maior conforto para o paciente com os recursos tecnológicos que tem à mão””, diz Carlos Domene, cirurgião especialista em robótica do Hospital 9 de Julho, um dos mais tradicionais de São Paulo.

Domene contabiliza mais de 200 intervenções com a técnica e afirma que a era digital chegou, de fato, à cirurgia. “”Estamos diante de uma transformação na prática da medicina””, sentencia. Com o avanço da tecnologia de imagens em terceira dimensão (3D), os médicos operam com poucas incisões, mais segurança e controle do procedimento. Têm visão, em 360 graus, dos males que afligem seus pacientes. Baixam dados e imagens das análises clínicas em seus sistemas e simulam a cirurgia, prevendo possíveis problemas e treinando cortes complexos como os realizados em extração de tumores.

Além de reduzir os riscos nos procedimentos, os profissionais de saúde veem a sua produtividade ampliada. “”As cirurgias são mais curtas, e conseguimos dedicar tempo aos pacientes durante as consultas e etapas preparatórias e de acompanhamento””, explica Domene. O Hospital 9 de Julho investiu, desde 2013, R$ 10 milhões em equipamentos para robótica e outros RS 5 milhões em capacitação da equipe. Já realizou mais de 700 intervenções com a tecnologia em especialidades como cirurgia geral, urologia e ginecologia.

Domene compara a cirurgia tradicional à escrita manual, entende que a videolaparoscopia – que permite cirurgias menos invasivas com uso de imagens em segunda dimensão (2D)- equivale à adoção da máquina de escrever. “”Já a robótica é o mesmo que colocar um computador nas mãos do cirurgião. Permite o ingresso de inteligência no processo””, afirma. Para ele, a cirurgia digital vai ganhar ainda mais valor e eficiência quando combinada a tecnologias como computação em nuvem, computação cognitiva, big data e transmissão de banda larga em alta velocidade e sem interrupções.

Não é de hoje que as ferramentas de tecnologia da informação (HC) fazem parte da atividade médica. “”Os sistemas de informação comandam desde a agenda até os estoques e carteira de recebimentos nas instituições de saúde. Sem o uso de tecnologia da informação, a gestão clínica e hospitalar eficiente seria impossível””, explica Marcelo Souccar, diretor do segmento de saúde da Totvs. Entre os avanços, ele cita o uso do armazenamento digital das informações sobre o paciente. “”O prontuário eletrônico abre um mundo de oportunidades para melhorar o atendimento, reduzir custos e gerir vidas””, explica.

Já a tecnologia de imagens em terceira dimensão (3D) transformou o setor de diagnóstico, entregando exames com maior precisão. Agora, os equipamentos evoluem para a era da conectividade, que será capaz de trazer informações médicas, em tempo real, para as salas cirúrgicas. “”O robô pode fotografar um tumor, enviar a imagem pela internet para sistemas de busca e análise de informações, como o big data, e obter respostas de uma base global de pesquisa sobre suas características””, comenta Domene.

Se a tecnologia de computação cognitiva – capaz de utilizar técnicas de inteligência artificial para ‘pensar’ e aconselhar os médicos sobre as melhores alternativas – estiver entre as soluções disponíveis no centro de saúde, o médico ainda obterá indicações dos melhores procedimentos para aquele caso. Baseadas, é claro, em experiências vivenciadas por médicos em todo o mundo. “”Também é possível conectar um especialista à sala de cirurgia para receber instruções””, explica o médico.

O robô Da Vinci, modelo adquirido pelo Hospital 9 de julho e outros centros de saúde públicos e privados no país, foi projetado nos Estados Unidos para permitir que especialistas operassem a distância pacientes nos campos de guerra. Com uma conexão potente de internet, a presença do cirurgião no local é dispensável. “”Esta aplicação amplia o acesso à medicina de ponta a populações que estão fora dos grandes centros e permite que o médico especialista atenda mais gente””, afirma Domene.

Outra tecnologia 3D que está revolucionando a medicina é a impressão. As aplicações podem ir da confecção de protótipos impressos em 3D, a partir das imagens de diagnósticos, com os quais os médicos podem simular a intervenção, até a manufatura de pinos e placas de metal personalizados para cirurgias ortopédicas. “”A prótese impressa com as medidas do paciente, além de mais confortável, permite escolher o material de acordo com as características biológicas de cada um, evitando rejeições””, afirma Luiz Fernando Dompieri, diretor da 3D Systems Latin America.

Segundo Dompieri, no Brasil a prototipagem 3D é utilizada em hospitais e em escolas de medicina para simular intervenções cirúrgicas. Já a impressão de próteses metálicas depende de aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por enquanto, as impressoras 3D têm sido utilizadas apenas para criar modelos para fabricação de placas aplicadas, por exemplo, em casos de traumatismo craniano.

Um dos desafios da medicina no Brasil é comprovar que o uso de tecnologia avançada compensa. “”A conta que envolve apenas o preço dos procedimentos é falha””, ressalta Waleska Santos, presidente da Hospitalar Feira e Fórum. Segundo ela, a pesquisa e o desenvolvimento de novos equipamentos levam em consideração a humanização, sendo o bem-estar do paciente o maior resultado. “”Quando o paciente retoma rapidamente suas atividades econômicas, é muito mais barato para todo mundo. Ganham a medicina, o plano de saúde e o governo.””

Além de projetar máquinas para humanizar o atendimento, a área de diagnósticos quer ampliar a produtividade dos equipamentos vendidos aos centros de saúde. Caio Sanches, diretor de marketing da área de ressonância magnética da GE Healthcare, cita a tecnologia do silêncio, que beneficia pacientes com fobia. Além disso, a empresa desenvolveu equipamento que permite a realização dos exames sem aplicação de contraste. “”Os atributos evitam adiamento do procedimento, quando o paciente desiste por medo do barulho ou por reação ao medicamento. Com isso, a produtividade da unidade de diagnóstico aumenta””, explica.

Equilibrar o preço do produto ao promover melhor seu uso também é uma das metas da Siemens. “”Os equipamentos precisam ampliar a produtividade de hospitais e centros de diagnóstico sem abrir mão da qualidade””, afirma Armando Lopes, diretor da divisão de cuidados com a saúde da empresa. Entre os exemplos, ele cita a possibilidade de monitorar remotamente uma rede de equipamentos de ressonância magnética. A conexão permite acompanhar o perfil de uso dos aparelhos em cada tipo de atendimento, estabelecer padrões e acompanhar os operadores. “”Um equipamento bem utilizado atende mais pacientes, ampliando a receita do centro de saúde. Com o retorno, há mais capital para investir em novas e melhores tecnologias.””

Entre as soluções criadas no Brasil, a Siemens cita a tomografia móvel, que foi desenvolvida em parceria com a fabricante de veículos Truckvan. O equipamento viaja em uma sala de exames itinerante e foi projetado para levara tomografia a localidades distantes, ampliando o acesso à tecnologia. “”Em hospitais ou clínicas de menor porte, a possibilidade de viajar com o equipamento é a melhor forma de rentabilizar a unidade de diagnóstico””, diz Lopes.

“”Além de ampliar o uso de novas tecnologias, o Brasil precisa estimular o desenvolvimento local delas””, defende Paulo Henrique Fraccaro, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos, Odontológicos, Hospitalares e de Laboratório (Abimo). Segundo ele, o mercado brasileiro de equipamentos ainda é pequeno em âmbito global. Fatura RS 22 bilhões por ano, sendo que 65% do consumo ainda é de importados. “”A maior parte das empresas que compõem o setor no país é de pequeno porte. E elas competem com gigantes internacionais””, explica. Para as multinacionais instaladas aqui, o volume atual de negócios não estimula, segundo ele, a criação de centros de pesquisa e desenvolvimento. “”O mercado brasileiro tem potencial de crescimento e precisamos equacionar melhor as comprar de produtos, para ampliar o conteúdo nacional””, afirma Fraccaro.

Para Waleska, da Hospitalar Feira e Fórum, a solução pode estar no fortalecimento da estrutura de pesquisa. A médica tem acompanhado de perto a construção de uma aliança entre Brasil e Alemanha para criar no Vale dos Sinos, no Rio Grande do Sul, uma espécie de Vale do Silício da Saúde, especializado em engenharia biomédica. “”As novas aplicações da medicina abrem espaço para negócios que ainda estão no campo das idéias. E preciso aproveitar o momento para expandir o conhecimento e a capacidade de criação no país.””

Segundo ela, o polo de saúde está baseado no modelo do Medicai Valley, instalado na cidade alemã de Erlangen, próxima a Nuremberg. Criado em 2008, o arranjo produtivo alemão reúne mais de 500 empresas, entre companhias de grande porte e startups, além de 16 universidades e 40 instituições de saúde. A aliança permitiria ao Brasil participar de uma rede internacional de desenvolvimento tecnológico, além de fortalecer a indústria nacional de equipamentos. “”Temos competência para criar um setor mais dinâmico e moderno. A medicina brasileira é reconhecida mundialmente e nossa academia respeitada””, diz Waleska.

Fonte: Valor Setorial – Saúde

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