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Costumes da política do filho único desafiam equipes de saúde

Publicado em 22/08/2015 • Notícias

Quando chegou a sua consulta pré-natal, na UBS da Sé, Yajun Han carregava consigo uma garrafa térmica com água quente. Baseada em interpretações da medicina tradicional chinesa, Yajun diz que o líquido quente serve para manter os órgãos saudáveis, o que ajudaria no desenvolvimento bebê.

“”As chinesas atendidas aqui não têm o costume de beber água. E, quando bebem, é água quente. Demorou até que a gente entendesse o motivo. No Brasil, a gente sempre recomenda água fresca para as pessoas””, diz a enfermeira Patrícia Pinheiro, que trabalha na unidade.

Além da barreira da língua, profissionais de saúde ouvidos pela Folha relatam que há outros abismos culturais entre o Brasil e a China nos cuidados durante a gravidez.

Segundo o ginecologista e obstetra Hsu Chih Chin, 55, muitas chinesas chegam a seu consultório, na Vila Olímpia (zona oeste de SP), acreditando que não se pode engravidar duas vezes num intervalo de cinco anos.

Para Chin, esse é um dos muitos boatos disseminados na China, na esteira da rígida política estatal de controle de natalidade.

“”Algumas mães têm medo de fazer ultrassom, porque acham que o exame pode afetar o desenvolvimento da criança.”” Para Chin, essa ideia surgiu da recomendação que médicos chineses recebem de não revelar o sexo das crianças aos pais.

Na China, desde o final da década de 1970, está instituída a política do filho único, que, com algumas exceções, impõe multas pesadas a casais que tenham mais de uma criança.

A política de controle do crescimento populacional, que tem se flexibilizado nos últimos anos, causou enormes desequilíbrios demográficos no país e uma série de abortos. Na imensa maioria, os fetos são de meninas, que são preteridas pela família.

A preferência pelo sexo masculino é sentida até nos consultórios brasileiros. “”Muitas mães ficam deprimidas ao saberem que estão esperando uma menina. A gravidez de uma menina muitas vezes não é um evento feliz para a família””, conta a enfermeira Patrícia.

Outra prática mantida pela comunidade chinesa no Brasil é a abstenção ao sexo durante a gravidez.

Com medo de prejudicar o bebê, as mães evitam ter relações sexuais com o marido. Quando isso ocorre, não é raro que as chinesas concedam que os maridos tenham outras parceiras temporárias.

“”Sem métodos contraceptivos, como a camisinha, aumenta a probabilidade de contração de uma doença sexualmente transmissível””, explica Patrícia.

LEITE MATERNO

Após o parto, as diferenças culturais continuam. Enquanto médicos brasileiros incentivam exercícios leves após o nascimento do bebê, o costume chinês é de repouso absoluto durante praticamente um mês. “”Muitas ficam em quartos sem ventilação””, relata o obstetra.

Outro hábito é o da amamentação breve das crianças. É comum ver famílias chinesas alimentando bebês de apenas três meses de vida com leite em pó misturado a ovo de codorna.

A interrupção precoce da amamentação é foco de atenção até do governo chinês, que estuda combater a cultura do leite em pó.

Em 2014, a China anunciou que apenas 28% das crianças de até seis meses de idade são alimentadas exclusivamente com o leite materno. Segundo o governo local, a forte urbanização causou uma mudança na cultura chinesa e a abreviação do período de amamentação.

No Brasil, a alimentação exclusiva por leite materno até os seis meses ocorre em 41% dos casos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Fonte: Folha de S.Paulo

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