Escolhas éticas salvam vidas
Publicado em 28/10/2026 • Notícias • Português
Na saúde, toda decisão de negócio termina em alguém. Um exame pedido sem necessidade, um produto escolhido por vantagem e não por evidência, uma verba que não chega à compra de uma ambulância. O recurso mal direcionado não fica só no balanço. Pode custar o atendimento, ou a vida, de quem está na ponta e nunca vai saber o que aconteceu antes de chegar ao hospital. É nesse sentido literal que a ABIMED usa a frase que orienta sua agenda de integridade.
O difícil é que a escolha errada raramente se apresenta como crime. Entre o que a lei proíbe e o que é claramente correto existe uma zona cinzenta, onde ficam o convite, o patrocínio, o brinde, a indicação de um fornecedor conhecido. Na pesquisa sobre percepção da corrupção na saúde, feita pela FGV com o Instituto Ética Saúde, quase 9% dos participantes não souberam dizer se ela é alta ou baixa no setor. Para as pesquisadoras, esse grupo preocupa porque pode não reconhecer a prática quando ela acontece.
A zona cinzenta cresce quando a prática se normaliza. Se todo mundo faz, parece aceitável. Nas áreas comerciais, isso aparece em perguntas comuns. Por que fazer diferente se o concorrente faz? Por que ser o primeiro? A pressão é real, porque as empresas precisam vender, competir e ter resultado para seguir investindo em novos produtos. Mas uma regra que só vale quando todos a cumprem dificilmente se sustenta.
O comportamento muda quando mudam os incentivos. A corrupção não é uma questão de DNA nacional. Os países que avançaram na prevenção conseguiram combinar o estímulo que facilita a escolha certa com o custo que torna a errada desvantajosa. A quantidade de normas, sozinha, não resolve. O Brasil acumulou milhões delas desde a redemocratização. Regras funcionam quando são entendidas e seguidas porque fazem sentido, e não apenas por medo da punição.
É nesse espaço que atua a autorregulação. A ABIMED revisou seu código de conduta, que as associadas se comprometem a cumprir ao entrar na associação, e mantém uma comissão de ética independente. A comissão recebe dúvidas e denúncias por um canal anônimo, operado por uma empresa externa, e funciona mais como orientação do que como vigilância. Ela ajuda as empresas a decidir no cinza antes que a dúvida vire problema. Quando a orientação não basta, uma matriz de consequências define o que acontece com quem descumpre o código.
Para a associação, a autorregulação funciona melhor com uma regra pública por trás. Hoje não há no Brasil um crime geral de corrupção entre empresas privadas. A exceção é o esporte. Na saúde, porém, boa parte das decisões de compra e de uso passa por hospitais, operadoras, distribuidores e fabricantes privados. Por isso, a ABIMED defende a criminalização da corrupção privada e a aprovação do Sunshine Act brasileiro, que daria transparência às relações financeiras entre a indústria e os profissionais de saúde.
O uso do cinto de segurança se espalhou com campanha e multa. Hoje, quase ninguém afivela o cinto pensando na fiscalização. Na integridade, o setor ainda depende muito da primeira fase, a da regra e da punição. A segunda começa quando quem decide se pergunta, antes de assinar, se contaria aquela escolha em casa.