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Hospitais reagem à mudança do clima

Publicado em 02/09/2015 • Notícias

Nas oito unidades do hospital Albert Einstein, o anestésico usado em cirurgias e exames é a maior fonte de emissões de gases­estufa do hospital. Na atmosfera, 1 kg de óxido nitroso (N2 O), a base do medicamento, faz um dano equivalente a 310 kg de CO2 , o mais volumoso dos gases­estufa. Um plano de emergência foi acionado em 2010, liderado pelos anestesistas, e o Einstein reduziu o consumo do gás em 23%. O caso do hospital ilustra o movimento do setor de saúde em começar a lidar com a mudança do clima e a se adaptar aos impactos.
Trata­se de uma tendência recente e mundial. O Spaulding Rehabilitation Hospital, ligado à Universidade de Harvard, inaugurou em 2013 um hospital ambientalmente­modelo e que se comprometeu em reduzir emissões em 40%. Tem janelas que abrem, um detalhe importante. No atendimento das vítimas do furacão Katrina, janelas de hospitais foram quebradas porque não abriam, o ar­condicionado não funcionava e pacientes morriam de calor.
Durante dois dias, 800 profissionais da saúde se reuniram no Hospital SírioLibanês, em São Paulo, no “”Seminário Hospitais Saudáveis ­ O desafio do setor de saúde frente às mudanças climáticas””. “”O setor ignora o conceito de saúde pública ambiental””, disse Vital Ribeiro, presidente do conselho da associação Hospitais Saudáveis. “”Recebe os doentes, mas não quer saber se poluição do ar e contaminação de alimentos matam.”” Hospitais, abertos todos os dias, sete dias por semana, são fortes consumidores de energia e água. Têm problemas com volume e toxicidade dos resíduos. Nos Estados Unidos, contribuem com 8% das emissões do país.
O National Health Service britânico responde por 25% das emissões públicas do país. Na Europa, o setor (contando também a indústria farmacêutica) é responsável por 5% das emissões.
“”Mudança do clima não é só assunto de preservação de florestas e ursos polares””, disse Joshua Karliner, especialista em ambiente e saúde. “”É um problema de saúde.”” Karliner coordena o time internacional da ONG Health Care Without Harm (HCWH), sediada na Califórnia, há 20 anos estimulando políticas públicas para que o setor reduza sua pegada ambiental.
O setor responde por 10% do PIB mundial. Nos EUA, essa fatia é de 18%. “”Se conseguirmos mobilizar o poder de compras do setor podemos mudar padrões de produção e consumo””, disse Karliner.
A HCWH coordena também uma rede global de 500 organizações que representam mais de 12,5 mil hospitais e centros de saúde no mundo. No Brasil são 142 hospitais e sistemas de saúde, representando 400 centros.
Para fazer parte da rede, o hospital tem que se comprometer com pelo menos duas de suas dez metas que pretendem reduzir consumo de energia e água, diminuir o uso de resíduos químicos e estimular compras sustentáveis.
Uma das iniciativas foi lançar o “”Desafio 2020″”, que busca três compromissos de seus membros: que tenham metas de redução de emissões, que sejam mais resilientes frente aos desastres naturais e que liderem as políticas públicas na sociedade. “”Mudança do clima é o problema de saúde mais contundente do século XXI, segundo a revista ‘Lancet'””, diz Karliner.
“”Nessa ótica, transporte público é uma questão de saúde também.”” A adaptação dos hospitais aos eventos extremos é fundamental. “”Hospitais têm que funcionar quando há desastres””, disse. Por isso, alguns transferiram o centro de geração de energia do subsolo (sujeito a inundação, como no caso do furacão Sandy, em Nova York), para o teto.
Neilor Cardoso, responsável pelo sistema de gestão ambiental do Albert Einstein, disse em palestra que o programa de redução de emissões do hospital conseguirá cortes próximos a 45% entre 2010 e 2015. As iniciativas preveem reaproveitar calor para o aquecimento da água, trocar lâmpadas por modelos mais eficientes, instalar painéis de energia solar e ter elevadores inteligentes. No caso da redução do uso de N2 O, um dos êxitos foi obter a adesão dos médicos.
Durante a CoP­21, a conferência do clima das Nações Unidas em Paris, a rede de hospitais pretende lançar uma série de compromissos. A meta é conseguir 10 mil hospitais no mundo participando do esforço e reduzindo, em 2020, suas emissões de carbono em 26 milhões de toneladas ao ano. Isso equivale a tirar de circulação 5 milhões de carros ou a instalar 6 mil turbinas eólicas.

Fonte: Valor Econômico

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