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Sinal de alerta para operadoras

Publicado em 30/08/2015 • Notícias

Depois de dez anos de alta, o setor de planos e seguros de saúde liga o sinal de alerta: diminui gradativamente o número de beneficiários no país. No acumulado do primeiro semestre deste ano, as operadoras de saúde perderam 193,2 mil usuários com o aumento na taxa de desemprego. A parcela nos seis primeiros meses de 2015 veio principalmente do segmento de planos de saúde corporativos, que perdeu 130 mil usuários.

O corte dos benefícios poderá aumentar se for mantido o ritmo de demissões, adverte a Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), que reúne empresas privadas de assistência à saúde de medicina de grupo, modalidade que cobre 20 milhões dos mais de 70 milhões de clientes da saúde suplementar brasileira. “”A redução não é tão expressiva, porque muitas empresas estendem o benefício do plano de saúde por seis meses ou mais para os demitidos e nem todos os trabalhadores têm o convênio médico””, diz Antonio Carlos Abbatepaolo, diretor-executivo da entidade.

Para as operadoras, os indicativos de queda apresentados são reflexos do momento econômico, que afeta negativamente as contratações de planos individuais e coletivos de saúde. “”Os planos coletivos empresariais, que representam 66% do total da saúde suplementar, devem, em um futuro próximo, sentir os reflexos do desemprego, que sobe desde janeiro, e da redução no número de vagas geradas””, diz Eudes de Freitas Aquino, presidente da Unimed do Brasil, sistema composto por 351 cooperativas médicas, que prestam assistência para mais de 20 milhões de clientes. Segundo ele, a redução de postos de trabalho atingiu 243.948 pessoas, de janeiro a maio deste ano e, se a taxa de desocupação continuar em elevação, vai impactar o setor.

Não há motivos para alarmes exagerados. Alguns resultados financeiros e balanços divulgados no fim de julho e início de agosto mostram que o setor tem um nível razoável de gordura para queimar. A SulAmérica, um dos maiores grupos do setor, fechou o segundo trimestre de 2015 com desempenho expressivo, alta de 14,1% nos prêmios dos segmentos de saúde e odontológico em relação a igual período de 2014. Vendas novas e manutenção de elevados níveis de retenção nos planos coletivos (empresarial, adesão, pequenas e médias empresas e odontológicos) são as razões da boa performance, afirma Maurício Lopes, vice-presidente de saúde e odonto da SulAmérica. O número total de segurados da operadora cresceu 2,6%.

No primeiro trimestre deste ano, a Bradesco Saúde e sua controlada Mediservice, que possuem cerca de 4,5 milhões de clientes, cresceram 8,7% em número de beneficiários ante igual período de 2014.0 faturamento cias operadoras no ano passado foi de R$ 14,9 bilhões, mais 22,1% sobre 2013. Já nos três primeiros meses de 2015, a receita atingiu R$ 8,5 bilhões, mais 24,4% ante o mesmo período de 2014, embora no acumulado dos seis primeiros meses do ano em relação a um ano antes, o lucro tenha caído 20%.

A Qualicorp, administradora de planos de saúde coletivos e serviços em saúde que tem como presidente Maurício Cechin, ex-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), exibe uma performance invejável, conquistada nos últimos três anos: 5,2 milhões de beneficiários, 3,2 mil empresas clientes, faturamento bruto de RS 1,6 bilhão (março de 2015) e valor de mercado de RS 6,5 bilhões.

As previsões são de crescimento, embora não seja retenção possível definir com precisão qual será o seu tamanho, de planos Os dados consolidados pela ANS mostram que o número de consumidores se manteve estável até junho deste ano, quando o setor registrou 50.516.992 beneficiários em planos de assistência médica e 21.526.467 em planos odontológicos. De acordo com a Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que representa 18 grupos de operadoras de planos privados de assistência à saúde de relevância no mercado, o crescimento do setor pode variar entre 2,7% e 3,3% este ano. Em relação às projeções Financeiras, estudo do Sindicato dos Corretores de Seguros no Estado de São Paulo (Sincor-SP) estimou, em junho, que a receita da saúde suplementar atingirá RS 142 bilhões em 2015, expansão de cerca de 14% em relação a 2014.

Mesmo assim, o momento exige cautela, insiste Freitas Aquino. Para manter as taxas de crescimento, a Unimed confia no que chama de gestão eficiente com qualidade. “”Em nossa estratégia estão previstos investimentos para a melhoria contínua dos processos de gestão e eficiência operacional, sem esquecer a expansão da rede assistência! própria, que conta com a segunda maior rede de hospitais próprios do país (25 unidades), depois apenas das Santas Casas.””

Outro ponto importante são os esforços despendidos para fazer a mudança do modelo assistencial, concentrando foco na Atenção Integral à Saúde. “”Neste modelo, o paciente é atendido por uma equipe multidisciplinar que o acompanha constantemente. Além disso, o próprio beneficiário passa a desempenhar o papel de agente responsável por sua saúde.””

Para conseguir aumentar sua carteira de beneficiários, em taxas menores que no passado, a SulAmérica aposta em três pilares básicos, aponta Lopes: gestão de preços responsáveis (não vender apólice muito barata, por exemplo); gestão de saúde, que significa cuidar com mais atenção dos doentes crônicos para reduzir despesas; e gestão de sinistros, um conjunto de ações e ferramentas que possibilitem à operadora controlar melhor suas despesas. “”Fazemos compras diretas de materiais especiais para atender 150 hospitais com cinco especialidades. Tivemos reduções brutais das despesas, da ordem de 30% a 40%.””

Operadora de múltiplos serviços, a SulAmérica cresceu também na área odontológica por razões diferentes do que ocorreu na área de assistência à saúde, que teve como impulsionador o alto grau de formalização de emprego na economia nos últimos quatro anos. O segmento odonto, segundo Lopes, está em formação-conta hoje com cerca de 20 milhões de usuários, contra 50 milhões na área de saúde – e o principal motivador do seu crescimento foi a estratégia das empresas de conceder o benefício aos seus colaboradores como forma de retenção de talento ou contratação de novos empregados. “”A carteira apresentou um crescimento em prêmios de 18,7% em comparação com o mesmo período de 2014, e um incremento no número de vidas seguradas de 9,9%, chegando a 676 mil beneficiários.””

Além de custos menores, por ser menor a incidência de procedimentos de alta complexidade, outro aspecto diferenciador do segmento odonto é o impacto da mudança demográfica. “”O envelhecimento da população brasileira não traz maiores dificuldades na área odontológica. O custo é mais equilibrado, não há muita diferença de preço dos planos por faixa etária””, avalia Mauro Figueiredo, presidente da OdontoPrev, com 6,3 milhões de beneficiários, 30% do mercado total de planos odontológicos. “”Nosso crescimento é constante. Ultrapassamos o faturamento de R$ 1 bilhão em 2014, e a empresa tem hoje um valor de mercado de RS 6 bilhões. Estamos lançando planos mais atraentes para micros e pequenas empresas, que é um segmento que cresce de forma mais acelerada.””

O mercado de pequenas e médias empresas vem sendo um dos motores da expansão registrada pela Bradesco Saúde e da Mediservice nos dois últimos anos, diz Márcio Coriolano, presidente da operadora, um dos grandes destaques do mercado de saúde suplementar. Em 2014, a carteira de segurados do segmento de micro, pequenas e médias empresas, atualmente com mais de 986 mil vidas e 113 mil empresas clientes, aumentou 21,6%; no primeiro semestre de 2015, o avanço foi de 18,4%. Em faturamento, os crescimentos foram 37,2% (em 2014) e 37,7% (no primeiro semestre de 2015).

Mas não adianta só colocar produtos na rua, é preciso ter uma melhor gestão de custos assistenciais, afirma Coriolano, que também preside a FenaSaúde. A forte investida de competidores internacionais no mercado brasileiro, segundo ele, reforça essa preocupação com a gestão mais eficiente dos recursos na área de saúde, pública ou privada. Em 2012, a Amil, na época a maior operadora do país, foi vendida para o grupo americano Unitedhealth, por alto em torno de RS 6,5 bilhões. Em 2014, o grupo de investimento Bain Capital, também dos Estados Unidos, assumiu o controle acionário do Grupo Notre Dame Intermédica, numa transação cujo valor não foi revelado. “”É natural esse apetite do investidor estrangeiro. Leva as empresas brasileiras a se tornarem mais criativas, mais eficientes.””

A expectativa é que, além de empurrar para a inovação, a entrada de mais capital estrangeiro ajude a superar as deficiências e as carências da rede hospitalar, pelo menos em algumas especialidades. No caso da Notre Dame Intermédica, a estratégia é clara, aponta Irlau Machado Filho, presidente do gaipo. Trata-se de implantar um novo modelo de gestão, focado em proporcionar mais investimentos, inovação e tecnologia.

“”A empresa traz um aprimoramento do sistema de prevenção, mais procedimentos a custos menores, ampliação e renovação do parque de hospitais, e mais foco no usuário final.”” Nos próximos dois anos, a operadora vai investir RS 140 milhões na reforma da infraestrutura de atendimento -56 centros clínicos, oito hospitais, seis maternidades e dez prontos-socorros próprios. O grupo, que atua nas áreas de saúde, odontológica e medicina ocupacional, tem hoje 3,2 milhões de beneficiários e faturou RS 2,5 bilhões em 2014.

Sem dúvida, os ajustes são necessários em toda a cadeia de valor do sistema de saúde suplementar, de forma a ter sua viabilidade assegurada no longo prazo, diz José Cechin, diretor-executivo da FenaSaúde. “”Como todos os segmentos que dependem da expansão de renda, o setor está alerta quanto ao recente quadro recessivo, que pode implicar impacto na base de beneficiários e inibição de novas adesões nos próximos meses, afastando, consequentemente, novos investimentos.”” Daí, destaca ele, a necessidade de que o governo promova uma regulação construtiva, com medidas que não ampliem os custos diretos e disciplinem a incorporação de novas tecnologias.

Para a advogada Rosana Chiavassa, especializada no direito do consumidor, no entanto, a promoção desses ajustes não deve deixar de fora da mesa de discussões um de seus maiores interessados, os consumidores brasileiros. “”Dia desses aconteceu em Brasília uma reunião entre o Ministério da Saúde e o presidente da ANS para liberar o aumento de preços dos planos individuais de saúde, pleiteado pelas operadoras, e que hoje é controlado pela ANS. Nenhuma entidade de defesa dos direitos dos consumidores foi convidada a participar.””

Fonte: Valor Setorial – Saúde

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