ABIMED apoia lançamento de pesquisa inédita sobre corrupção na saúde
Publicado em 28/05/2026 • Notícias • Português
A ABIMED participou ontem, 27 de maio, do evento de lançamento dos resultados da pesquisa “Indicadores da Percepção da Corrupção no Setor da Saúde”, realizado no Salão Nobre da FGV EAESP, em São Paulo. A pesquisa foi conduzida pelo FGVethics e pelo Instituto Ética Saúde (IES).
A associação integrou o grupo de patrocinadores que tornou possível o levantamento, ao lado de ABIIS, AdvaMed, ABRAIDI, CBDL, IBROSS e Interfarma. O presidente da ABIMED, Fernando Silveira, discursou na abertura do evento e destacou que a “Corrupção na saúde é crime” e que seus efeitos interrompem a vida, “desviando recursos, tomando atitudes equivocadas, postergando decisões críticas.”
Os resultados foram apresentados pela professora Ligia Maura Costa, coordenadora do FGVethics. A pesquisa reuniu mais de mil respondentes válidos, entre médicos, enfermeiros, distribuidores, profissionais da indústria farmacêutica, gestores de planos de saúde, auditores e usuários do sistema, e combinou questões de percepção com questões de vitimização, metodologia considerada mais precisa para mapear o fenômeno.
Os dados são expressivos. Somados, 66,8% dos entrevistados classificaram o nível de corrupção no setor como alto e 21,5% como moderado. A percepção de corrupção em instituições públicas de saúde chegou a 92,5%; no setor privado, a 88,4%. Entre profissionais vinculados a planos de saúde, o índice no setor privado foi de 100%.
O levantamento aponta ainda que 63,6% dos respondentes afirmam ter ouvido relatos ou testemunhado situações de corrupção, e que o medo de retaliação é o principal fator que inibe denúncias.
Para a professora Ligia Maura Costa, um dado revela tanto quanto os percentuais: o questionário, com 41 perguntas, gerou 282 comentários espontâneos no campo aberto — volume incomum para pesquisas dessa extensão. “As pessoas queriam falar”, disse ela. Para a pesquisadora, esse engajamento confirma a credibilidade do anonimato garantido e dá legitimidade adicional ao estudo. Ela também chamou atenção para o fato de que 8,6% dos respondentes não souberam classificar o nível de corrupção no setor — dado que, segundo ela, aponta para uma lacuna de formação: “Você precisa explicar o que é corrupção, o que é um ato corrupto. É um treinamento que nunca está na pauta.”
Para o setor de dispositivos médicos, representado pela ABIMED, a pesquisa traz dados diretamente pertinentes. Distribuidores registraram 59% de percepção de corrupção no setor privado. O relatório do IES que acompanha a pesquisa mapeia práticas recorrentes na cadeia de dispositivos, como pagamento de propinas vinculadas à indicação de produtos, contratos fraudulentos para dissimular comissões, reesterilização de materiais de uso único e cobranças indevidas de pedágios em portais de compras hospitalares.
O evento também contou com palestra de Wagner Rosário, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e ex-ministro da CGU, que contextualizou as dificuldades de mensurar corrupção e destacou a importância de pesquisas que combinam percepção e vitimização.
Os dados serão usados para a construção de indicadores de integridade aplicáveis a hospitais, operadoras e órgãos públicos. O relatório completo está disponível nos sites do IES e da FGV.