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‘Como nasci de novo”

Publicado em 11/07/2016 • Notícias

A HISTÓRIA COMEÇOU no ano passado, quando decidi fazer um planejamento financeiro. Tenho três filhos e quatro netos e quis organizar a sucessão dos meus bens, deixar tudo conversado e escrito. Além disso, resolvi ter um plano de previdência especial, daqueles que permitem usufruir o dinheiro investido em vida. no caso de uma enfermidade grave. Sou um profissional liberal. Se deixar de trabalhar, paro de receber dinheiro. Meu primeiro passo foi consultar minha filha do meio, advogada. Ela indicou uma consultoria, que recomendou uma seguradora americana. Para ser admitido, eu deveria fazer um check-up. Os exames foram feitos no laboratório determinado pela própria empresa. Os resultados estavam absolutamente normais, mas estranhei quando recebi o histórico de exames anteriores. Estranhei porque os parâmetros estavam diferentes, alterados. Olhando com mais calma, percebi que eram exames do meu pai. Por pura coincidência, o laboratório era o mesmo que ele frequentava. E nós temos o mesmo nome.
Imagino que a seguradora tenha recebido o mesmo histórico e, vendo os resultados alterados, um corretor me telefonou pedindo que eu fizesse dois testes complementares: um ecocardiograma com doppler e um teste de esforço. Em vez de esclarecer o engano, que me daria um trabalho insano, resolvi fazer os tais exames. Escolhi a clínica de um amigo de longa data, o Carlos Alberto Pastore. cardiologista. Eram 8 horas da manhã, coloquei camiseta, bermuda. tênis e fui com Teresa, minha mulher, tranquilamente para lá. O ecocardiograma acusou uma placa de gordura em um vaso. nada grave. No teste de esforço, porém, Pastore estranhou o fato de eu ter perdido o fôlego rapidamente e de minha pressão ter aumentado. Ele ligou para o cardiologista Roberto Kalil. meu amigo. Os dois decidiram que eu deveria ir para o hospital fazer uma tomografia de coronárias. Resultado: o fluxo sanguíneo do meu coração estava baixo. O Kalil pediu um cateterismo.
Alguém aventou a possibilidade de eu esperar um pouco para fazê-lo, mas os dois cardiologistas e o médico Pedro Lemos, responsável pelo procedimento, recomendaram urgência.
Em nenhum momento dei minha opinião sobre tudo aquilo que estava acontecendo. Nem como médico nem como paciente. Apenas abri minha boca para pedir que trouxessem minha papelada duas horas antes de fazer o exame. Eu queria assiná-la. O cateterismo é seguro, mas sempre há um risco. Chamei minha filha, ela veio até o hospital com os documentos. Liguei para a Secretaria de Saúde e para meu consultório, apenas disse que não poderia trabalhar naquele dia.
Logo ao acordar do exame, o anestesista, Enis Donizetti Silva, disse que tudo tinha dado certo: ‘‘Você tem três stents agora”. Duas coronárias minhas estavam com 95% de obstrução e um vaso marginal com 30%. Ou seja: se não fizesse nada, morreria na rua. Minha sorte, portanto, nasceu de um erro. O laboratório confundiu meus exames com os do meu pai. levando-me a fazer os exames complementares. Sorte pura. Foi uma situação no mínimo muito curiosa. Com algum distanciamento, é assim que a vejo hoje. até com algum humor. Mas, na verdade, passei por um susto enorme. Fui vítima de um erro que acabou salvando minha vida.
De lá para cá, mudei meus hábitos, mas nem tanto. Sempre fui uma pessoa regrada, nunca exagerei na comida nem na bebida. Meu grande pecado talvez seja o stress. Trabalho demais e durmo pouco. A Secretaria de Saúde demanda muito. O governador, exigente, cobra resultados o tempo todo. Sou disciplinado e lido mal com meus erros. O que mudou agora é ter voltado a praticar exercícios. Faço cinquenta minutos de esteira em casa. diariamente. Três vezes por semana, à noite, faço musculação. Emagreci 20 quilos. Nasci de novo. Estou sendo bastante paparicado em casa e no trabalho. Isso é uma delícia. E quer saber mais? Não fui aceito pela seguradora.

Fonte: Revista Veja

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