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Roche compra empresa de microbiologia, fundada por ex-bolsista brasileiro

Publicado em 30/08/2015 • Notícias

Durante os quatro anos que passou na Universidade de Cornell nos Estados Unidos como bolsista de doutorado pleno da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o pesquisador Leonardo Maestri Teixeira fundou uma empresa de biotecnologia para o desenvolvimento de um kit rápido de diagnóstico bacteriano e de susceptibilidade antimicrobiana. O projeto deu origem a tecnologia da GeneWEAVE Biosciences, que acaba de ser vendida para a companhia suíça farmacêutica Roche por R$1,5 bilhão.

A empresa teve início durante o segundo ano de doutorado de Leonardo, quando junto com um colega realizou uma disciplina de empreendedorismo para engenheiros e cientistas. “No decorrer da disciplina, tínhamos que trabalhar um plano de negócios conceitual em cima de uma ideia. Discutimos sobre diversas ideias, até resolvermos buscar um problema de países em desenvolvimento como o Brasil. Na ocasião escolhemos buscar uma solução para tuberculose. Durante a disciplina buscamos uma solução para a erradicação da tuberculose, focando no diagnóstico. Daí surgiu o conceito da tecnologia, que posteriormente patenteamos e aprovamos um projeto para o desenvolvimento da prova de conceito da ideia que tivemos”, conta.

A partir dos recursos captados de projetos e de premiações oriundas de competições de planos de negócios, os dois colegas conseguiram ampliar a equipe, com uma pós-doc em tempo integral e um mestre, ambos brasileiros, além de contratar uma pessoa da área de negócios iniciando um MBA. “Para conseguirmos capital semente, mudamos o foco do nosso kit de diagnóstico de tuberculose para infecção hospitalar, já que este era um problema dos EUA, e consequentemente facilitaria a captação de recursos. Em 2010 captamos em capital semente US$ 1,2 milhões, em 2012, captamos nossa série A, um montante de 12 milhões de dólares, e em junho de 2014 foi a última captação, de mais 12 milhões. Desde 2014 já temos alguns equipamentos em teste em alguns hospitais, e começamos a apresentar os resultados em algumas feiras setoriais, já no intuito de divulgar o produto e a empresa para uma possível venda, que ocorreu no início de agosto”, afirma Leonardo.

Venda

Empresas de base tecnológica normalmente tem como objetivo ser vendidas, ou fazer uma oferta pública de ações, explica o pesquisador. Sendo assim, a venda não foi exatamente uma surpresa. “Entretanto, o valor e a data sim, pois por estar no Brasil, e por questões de sigilo, só fiquei sabendo depois de finalizada. Meus sócios ficaram felizes, mas estavam exaustos quando o negócio realmente foi finalizado, pois a negociação foi bastante longa e estressante. A aquisição teve um aporte inicial de apenas 40% do valor, ficando o restante dependendo dos resultados e metas negociadas. Ou seja, apenas começou. Nosso objetivo é realmente ver o produto em todos os hospitais, salvando milhares de vidas por ano, já que esta foi a proposta inicial”, ressalta.

Leonardo conta como ele e a equipe estão felizes e orgulhosos com a conquista de mais esta etapa de um trabalho contínuo. “Agora toda a equipe da GeneWEAVE poderá focar no objetivo final, e não viver a realidade de toda startup como a nossa, que um dia após captar recurso, já começa a se preocupar com o novo investimento que será necessário para a sua sobrevivência. Sem contar com o know-how da Roche, que se torna imediatamente acessível para a GeneWEAVE.”

O pesquisador deixa claro que o valor da aquisição, US$ 425 milhões, não é integralmente recebido pelos sócios. “Um ponto que gostaria de enfatizar, é que sofri uma grande diluição durante os investimentos, o que é normal em uma empresa que recebe recursos de capital de risco. E que estes investidores ficam com a maior parte do retorno da venda. Isto é normal, já que o risco de capital é todo deles. Enfatizo isto para os que não são familiarizados com estes negócios acharem que fiquei bilionário!”, brinca o ex-bolsista.

Experiência no exterior

Leonardo realizou o doutorado durante os anos de 2004 a 2008, no departamento de microbiologia da Universidade de Cornell no estado de Nova York. “Meu laboratório era no departamento de alimentos, ocupava todo um andar, e tínhamos mais de 30 pesquisadores, das mais diversas áreas trabalhando em conjunto. Minha tese de doutorado foi em Nanobiotecnologia, trabalhando com engenharia e uso de proteínas de superfície de bactérias como moldes em nanofabricação”.

O trabalho que deu origem a GeneWEAVE foi desenvolvido paralelamente à tese de doutorado. “O trabalho da tecnologia da GeneWEAVE foi feito em paralelo por exigência do meu orientador, já que o desejo de trabalhar em algum projeto para iniciar uma empresa surgiu em uma disciplina de empreendedorismo. O projeto da empresa, assim como o modelo de negócios inicial foi elaborado nesta disciplina, ainda sem trabalho de bancada. Por incrível que pareça, nós dois ficamos com uma péssima nota nesta disciplina, na verdade a pior do meu histórico”, lembra bem-humorado.

Leonardo também destaca a importância de ter realizado o trabalho fora do país. “Não conseguiria ter desenvolvido minha tese de doutorado no Brasil, for falta de infraestrutura tecnológica na ocasião. Além da infraestrutura, o ambiente interdisciplinar em que trabalhava era realmente único.”

Além da pesquisa da tese e do desenvolvimento da empresa, o brasileiro também desenvolveu um projeto com o Ludwig Institute for Cancer Research (LICR). “Trabalhei na produção de proteínas recombinantes, já que tínhamos no laboratório uma sala limpa de produção de biomoléculas certificada para boas práticas de fabricação em parceria com o LICR. Lá produzimos algumas candidatas a vacina para câncer, como também a vacina Sm14 utilizada em estudos clínicos de fase 1, uma vacina que foi descoberta e desenvolvida no Brasil, e produzida por nós em uma parceria com do LICR, com a Cornell University e com a Fundação Oswaldo Cruz.”

Com essa ampla atuação, Leonardo demonstra satisfação sobre o período do doutoramento nos EUA. “Tentei aproveitar ao máximo meu período de formação no exterior, em alguns momentos sendo até mesmo criticado com a possibilidade de estar perdendo o foco. Mas não me arrependo de nada, pelo contrário”, ressalta.

Apoio e retorno brasileiro

O apoio da Capes e das agências de fomento brasileira acompanham toda a trajetória de Leonardo. “Sem o apoio da Capes não teria feito o que fiz. Durante a minha graduação em Ciência e Tecnologia de Laticínios na UFV tive bolsa de iniciação científica e, posteriormente com bolsa da Capes, fiz meu mestrado em Microbiologia Agrícola nesta mesma instituição. Ainda como bolsista de IC na graduação disse a minha orientadora, Profa. Célia Alencar de Moraes, que gostaria de fazer meu mestrado sob sua orientação e o meu doutorado integral no exterior. Ela me deu todo o apoio, e então me apresentou ao que foi posteriormente o meu orientador de doutorado em Cornell, onde ela também fez o seu PhD.”

O trabalho para ingressar no doutorado em Cornell começou ainda no início do mestrado. “Naquela época, em 2002, a quantidade de bolsas de doutorado integral no exterior eram bem limitadas, ainda não tínhamos o Ciência sem Fronteiras. Sempre com o apoio da minha orientadora, passei por todas as etapas do processo seletivo e em 2004 saiu o resultado definitivo de que havia passado para o doutorado em microbiologia em Cornell e também consegui ser um dos selecionados para a bolsa da Capes de Doutorado Pleno no exterior”, lembra.

Leonardo acredita que o conhecimento obtido já está sendo revertido ao Brasil. “Hoje sou diretor-presidente de um instituto, que é uma referência nas áreas de atuação, com mais de 60 pesquisadores doutores, muitos deles com bolsa de produtividade em pesquisa. Um grande aprendizado que tive, tanto nos projetos interdisciplinares em que participei, quanto na experiência que tive com a GeneWEAVE, é que sem uma equipe, seu fator de multiplicação e de obtenção de resultados serão sempre determinados pelos seus pontos fracos. Além disso, outro resultado que poderá ser revertido ao Brasil, serão todas as vidas que serão salvas quando a Roche iniciar a comercialização da tecnologia da GeneWEAVE no país”, conclui.

Doutorado Pleno

O programa de Doutorado Pleno no Exterior da Capes contempla as diversas áreas do conhecimento e destina-se a candidatos de elevado desempenho acadêmico que se dirijam a instituições estrangeiras de excelência para a realização de doutorado pleno em universidades do exterior.

A iniciativa tem como objetivo oferecer bolsas como alternativa complementar às possibilidades ofertadas pelo conjunto dos programas de pós-graduação no Brasil; ampliar o nível de colaboração e de publicações conjuntas entre pesquisadores que atuam no Brasil e no exterior, proporcionando maior visibilidade internacional à produção científica, tecnológica e cultural brasileira e ampliar o acesso de pesquisadores brasileiros a centros internacionais de excelência.

Fonte: Lab Network

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