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Análise: Dilma faz bom diagnóstico, mas não apresenta solução

Publicado em 10/09/2015 • Notícias

A entrevista da presidente Dilma Rousseff à diretora-adjunta de Redação do Valor, Claudia Safatle, trouxe um bom diagnóstico do desafio fiscal do Brasil e também mostrou uma revisão consistente na leitura que a presidente antes fazia da realidade econômica do país e dos caminhos para o crescimento. Não foi uma entrevista pautada pela “nova matriz econômica”. Tampouco foi 100% ortodoxa. Como Dilma mesmo indicou, ela procura um caminho do meio, onde o consumo já não será o motor exclusivo do crescimento. Investimento, exportações e queda da inflação pavimentariam essa rota. É um bom plano, no qual ela deu ao fiscal a importância que merece. Apesar da mudança de discurso em relação à fé econômica antes professada pela presidente, a entrevista não teria o poder de reverter a decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, que retirou o grau de investimento do país e ainda deixou a nova nota em perspectiva negativa. A S&P colocou os desafios políticos e o risco fiscal no primeiro plano para justificar a decisão. Para o fiscal, a entrevista de Dilma trouxe o diagnóstico, mas não apontou o caminho da solução. Em parte, a solução não aparece porque o outro problema apontado pela S&P ainda parece minimizado pela presidente. Ela ainda faz de conta que do outro lado do Palácio do Planalto não existe uma situação arisca e uma oposição ferrenha. Ela não in dicou ver o desafio político que a S&P apontou. Dilma se comprometeu com o fiscal, mas não deixou claro como pretende entregar um superávit de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano, meta que representa um ajuste superior a 1% do PIB em relação à proposta enviada ao Congresso. A presidente assume o que dez entre dez economistas que acompanham contas públicas dizem há anos (e não apenas nas últimas semanas): é preciso mexer nas despesas obrigatórias. Mas como? Quais? Quem vai pagar o preço político dessa revisão? Dilma fala que o governo já cortou as despesas discricionárias. Elas recuaram quando a inflação é descontada, mas por enquanto ainda estão repetindo o ano passado. Não há corte, há congelamento de aumentos esperados. De janeiro a julho, as despesas discricionárias somaram R$ 114,2 bilhões, apenas 1% menos que os R$ 115,1 bilhões de igual período do ano passado. Ou seja, ainda falta cortar onde há espaço para isso. Dilma identificou que as despesas obrigatórias somam 90,5% do gasto total do governo federal, sinal de que a equipe econômica está realmente olhando para essas contas. Reduzir esses gastos, contudo, pressupõe rever a vinculação das receitas da Saúde (9,3% do gasto), Educação (9,3%), regras da Previdência (39%), os mecanismos que regem os salários e os benefícios do funcionalismo (20%), além de abono salarial e seguro desemprego (5,3%), Bolsa Família (2,6%) e Loas (3,8%). Mudar essas regras implica ir muito além de assumir um novo discurso. É preciso assumir as perdas que virão e defendê-las perante sua base política. Essa conta é da presidente, sua equipe e seu partido, e não da oposição. Enfim, enquanto o diagnóstico correto não se transformar, de fato, em medidas concretas e factíveis, e a degradação política não for confrontada, o risco de outras agências seguirem a S&P permanece elevadíssimo.

Fonte: Valor Econômico / site

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